quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Homenagem à Minha Avó.

Interessante observar as sincronias da vida. O texto que a Dirlene me passou sobre a Toscana (se vc não leu, clique aqui) me lembrou de minha avó, uma toscana valente e decidida, daquelas que sempre sabia colocar todo mundo em seu devido lugar. Na mesma semana, recebi uma crônica de minha sobrinha querida falando novamente sobre ela, a avó. Como não sou de ignorar sinais, decidi que talvez fosse hora de falar um pouco sobre essa mulher extraordinária, italiana apaixonada pelo Brasil, que até hoje é modelo para todas nós. Digo todas nós, porque as mulheres da família, mesmo aquelas que não a conheceram, têm Dona Ernesta como modelo.
Ela chegou por aqui em 1917, vinda de uma Europa devastada pela guerra, onde havia passado fome, frio e dificuldades inimagináveis. Não foi fácil, mas a experiência forjou seu espírito já firme por natureza. Ah, sim! ela era uma rocha!
Chegou ao Brasil para nunca mais sair. Visitou a Europa apenas uma vez, não por falta de recursos, mas por medo de morrer longe daqui. Ela amava o Brasil muito mais do que a maioria dos brasileiros que conheci.
Falar dela engloba tanta coisa! Traz tantas lembranças da infância, adolescência e juventude que não sei bem por onde começar, me perco entre os anos onde a presença de Dona Ernesta era tão constante quanto o sol nascer no dia seguinte.Vou tentar resumir, entretanto.
Numa época onde o lugar da mulher era na cozinha, calada e mansa, ela se casou 3 vezes, teve duas filhas (uma de cada casamento), 3 netos, 8 bisnetos e, por enquanto, 2 tataranetos.
Com ela, nós aprendemos a encarar a vida nos olhos, a fazer o que precisa ser feito, a não dar bola para a torcida. Aprendemos a ser gentís com todas as pessoas, a dar uma força para quem merece, a nos reinventar e seguir em frente, porque amanhã será sempre melhor que hoje.
Aprendemos que não há problemas insolúveis, dores que não passem, corações que não se colem. Aprendemos a ser fortes e que chorar faz parte da vida.
Aprendemos a beber vinho com sabedoria, a ler o jornal todos os dias (de cabo a rabo como ela fazia), a tomar café forte, a rir da vida, a força da família, do amor e da união em tempos complicados. Também aprendemos que unhas feitas, batom, salto e elegância são coisas das quais não se abre mão. Que gentileza abre portas e que a praticidade é a grande ferramenta da vida. Que uma casa limpa e bem arrumada é fundamental, que visitas são bem vindas, que coração não é um palavra, mas uma atitude.
Há anos ela não está mais entre nós, mas suas licões permanecem.
Lições de coragem, segurança e praticidade que nos direcionam até hoje.
Vó, não sei onde você está, mas tenho certeza que esteja onde estiver, está arrumando a bagunça, pondo ordem em tudo, de salto, unhas bem feitas e com um belo diamante no dedo. Você nos iluminou a todas e deixou conosco a marca indelével da firmeza terna e carinhosa que nos impede de envelhecer na alma. Todas nós amamos você!

Abaixo, o texto que motivou este post:

Petit Monde Gourmet

Inaê Magno

Almoçava com um velho amigo enquanto o ouvia listar as maravilhas da moderna gastronomia: crème brûlée, petit gateu, camarões chineses, carnes argentinas, cortes especiais, frisantes, espumantes, outros vinhos, cafés. Coisas de encher os olhos, a pança, a alma.
A certa altura, pensando com meus murchos botões, arrisquei palpite: “Não sou chique! Não gosto de sushi, não bebo café, vinho também não”. Ele, de lá, disse que eu estava errada, que gosto é gosto e pronto. Não existe isso de gosto chique ou não:
- Mas se a pessoa gosta de arroz com feijão, também não precisa comentar, né? Concluiu seu raciocínio.
Hein? Por que, não? Qual o problema de gostar de arroz com feijão? Perguntei deveras convicta de minha inaptidão para o glamour.
- Não tem problema nenhum. Só que arroz com feijão é coisa comum, não é para dizer que gosta.
Comum para nós, porque é da nossa cultura. Um estrangeiro bem pode se deleitar com um feijãozinho com carne e arroz.
- Isso mesmo, é nossa cultura, não tem que falar que gosta.
Naquela hora, eu que muito me esforçava por flanar pelos sabores requintados que o homenzinho à minha frente descrevia, vi-me, de súbito, à mesa de minha bisavó. Meu bisavô à cabeceira, ela à sua esquerda, pouco depois tia Nena. O lustre de madeira trabalhada sobre nós, toalha limpa, pratos de porcelana branca e bordas cor de prata, talheres antigos, copos de vidro. A cestinha de pão e o meio limão ao lado de vovô. E um carinho de brisa fresca soprando das janelas abertas.
Vovó era italiana, de Pescia, Toscana. Jovem camponesa que desceu aos trópicos em busca de vida melhor. Trabalhou de roça, de operária. Partiu aos noventa, viúva de um pequeno industrial húngaro, oito anos mais velho. Mãe de duas filhas. Avó, bisavó.
Vovó era cozinheira. Não, minto. Vovó era COZINHEIRA. Sim. Maiúscula. Na cozinha e em tudo mais. Em sua casa, aquela que a abrigou até a morte e que em vida acolheu a todos, havia muitas dessas coisas de que falava meu amigo: vinhos, cafés, comidas. Mas era diferente. Vinho era domingo, companhia de macarronada com queijo ralado. O aroma onipresente da mesa posta não dava espaço a que se cheirasse o copo antes de bebê-lo. Café se tomava de manhã, depois do almoço e à tarde. Era coado na hora, deixava um rastro de coisa boa no ar. Não era amigo de água com gás e pau de canela. Sua parceria era com bolo de ovos, pão de mel, baralho, conversa fiada. E comida era isso mesmo: comida. Quer dizer: COMIDA. Farta, simples, boa.
Nos bons tempos de minha infância, bem aquecida pelas asas de vovó, nossa família era relativamente extensa. Havia tios e primos de graus variados. Gente nacional, gente estrangeira, gente nova, gente velha. Quando vovó anunciava comida – almoço, jantar, o que fosse – a casa enchia e ninguém lamentava não haver chef na cozinha. O povaréu ia porque era domingo, porque era Natal, porque era noite e chovia. Por causa do espaguete, do bolo de nozes, do caldo de carne com cabelinho de anjo. Ia para ver vovô. Ia para ver vovó. Ia porque ia. E deixou de ir quando eles morreram.
Vovó, italianíssima, não parecia ter vergonha de dizer que gostava de macarrão. E nós, brasileiríssimos comensais de sua obra prima, menos ainda. Também não nos envergonhávamos de gostar de ovo frito, peixe à milanesa, chuchu refogado na manteiga, frango ensopado com mandioquinha e cenoura.
Tenho saudades de minha bisavó. Muitas. Mulher fascinante. Boa e simples como arroz com feijão, bife com batata frita, macarrão com molho. Seu endereço, meu primeiro lar: Rua Dona Antônia de Queiroz, 165. O antigo sobrado ainda está lá. Hoje abriga qualquer coisa da Prefeitura. Está de pé, mas não vivo. Não brilha à luz da prata e dos cristais. Domingos, para ele, são apenas os dias mumificados que se espremem entre sábados e segundas. Não mais o cheiro do tomate fresco, o som das cortinas ao vento. As noites, quando há frio, são noites de frio. Não mais sopa quentinha, torradas, vontade de cobertor. Aos sábados não há ervilhas, carteado, café fresco. A velha casa está lá. Vovó não.
Vejo-me imersa em devaneios. Quem atenderá quando eu chamar o 256-3653? Onde estão os gerânios da sacada? Não vejo vovô ao sofá. Alguém dê quirela aos pobres pardais, pelo amor de Deus! As janelas da frente não podem estar fechadas, hoje é dia de sol! Não é vovó quem desce as escadas, batom vermelho, garbo absoluto. Tia, e sua porcelana? Não se pinta mais nesta casa? Quem cortou o jasmineiro do quintal? O pinheiro há muito que caiu, lembro. E vovô, ao longe, repete seu bordão: “Quanta coisa acontece quando o dia é comprido!”.
Não posso mudar o que passou. Fecho os olhos na infância e os reabro agora, adulta. De volta à mesa de meu amigo. Ele ainda fala de baristas, sommeliers e outros estetas do gosto. Moderna gastronomia, coisa chique. Não lhe quero estragar o entusiasmo, mas esse pessoal já estava por aqui quando vovó fazia polenta com carne moída. Eles agora são mais. As avós, menos.
Mas não temamos, o sonho não acabou. Quando esse petit monde gourmet invadir a cozinha dos lares e o coq au vin for nosso franguinho de domingo, ainda haverá o céu das avós, imenso e generoso refúgio onde mulheres maiúsculas como Dona Ernesta cozinharão seus quitutes para nós, famintos, saudosos e eternos netinhos.


Beijos!

4 comentários:

Angélica disse...

Que post bonito, adorei! Também morro de saudades da minha avó. Ela faleceu quando eu tinha 10 anos, era minha segunda mãe. Saudades do seu cheirinho de talco, do abraço mais gostoso do mundo, de comer "carne de panela", de tomar banho de chuva dando gargalhadas... Lembranças que ficam para sempre marcadas em nós. Bjs!

Snake disse...

Acho que quem convive com os avós são privilegiados. E vc, por ter tido a oportunidade de não apenas conviver mas tbm receber lições construtivas, tem que se achar das pessoas mais sortudas do mundo.
Não tive família (como é tradicionalmente). Convive apenas com minha mãe e irmãos dela. Sempre achei que uma avó faz muita falta. E, assim como vc, descendo de imigrantes que chegaram por aqui refugiados de uma Europa devastada pela guerra. Jamais conheci qualquer um deles (e sabe que quem gosta de contar história, ama ouvi-las).

nossos imigrantes tem mtas lições de força e coragem para nos passar. Serem exilados de suas terras, vindo para um país completamente diferente em todos os aspéctos, vencer todos os obstáculos que vão desde o idioma e, ainda assim, saem vitoriosos, mesmo que não construam castelos.

Daí, vendo isso, vejo o quanto estamos melindrosos, se condoendo com tão pouco, choramingando com apenas algumas pedradas. Outros, jovens, saudáveis, mendigando esmolas de pessoas ou governo, incapazes de meter mão na massa, mesmo tendo tudo ao seu alcance.

Com certeza histórias de vidas como a Dona Ernesta deveriam ser contadas mais vezes, para que a gente aqui acorde para a vida e tome tendência, que é o que muito se precisa!

Laura Elias disse...

Angélica!
Avós gostosas sempre serão o colo absoluto de todos nós. O porto do carinho e da sabedoria que apenas o tempo e bons olhos podem trazer. Minha avó materna deixou em todas as mulheres de nossa família o legado da força, do bom humor e da generosidade desinteressada. E mais, a importante lição de que "a soberba vai a cavalo e volta à pe" - ditado que ela sempre repetia. Deixou a marca da autenticidade, da concretude. Uma GRANDE mulher e um ser humano raro. Um privilégio para nós.

Beijos, minha flor, obrigada pela visita!

Laura Elias disse...

Oi, Snake, que comentários fortes estes seus. Você tem toda razão. Nascemos em um país rico, próspero e tranquilo, somos todos mimados e preguiçosos, achamos que tudo tem que cair do céu, como se o Universo tivesse a obrigação de nos prover, porque somos bebezinhos indefesos.
Os imigrantes tiveram que pegar o touro à unha e fazer acontecer, criar onde nada havia. Sairam do potencial para o real com vontade, determinação e disciplina.
Minha avó é um exemplo de tantas coisas! E tinha uma intuição de arrepiar! Meu avô a chamava de "bruxa" e como ela adorava vermelho, as vezes a chamava "cigana", com carinho e orgulho. Orgulho que todos nós sentimos pela honra de tê-la como avó, bisavó e tataravó.
Como disse a Inaê no texto, ela era uma mulher maiúscula e maiúsculos também foram os exemplos que deixou.

Beijo enorme pra vc, que bom que veio me visitar!